quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Capitães da Areia / Capitães do Asfalto

Esses dias eu peguei o Capitães da Areia - de Jorge Amado - do meu irmão pra ler. Engraçado, ele não é muito da leitura, mas sempre cita esse livro. Dessa vez resolvi ler o livro com outros olhos. Não que eu tenha mudado tudo que eu penso, mas acho que depois das experiências que venho tendo ele pareceu encaixar-se bem.

Pra quem não sabe,o livro conta a história dos Capitães da Areia, um grupo de meninos abandonados de 9 a 16 anos que moram nas ruas da Bahia. Na verdade, eles dormem em seu esconderijo secreto, o trapiche, na companhia dos ratos, sob a lua amarela. Comandados por Pedro Bala, os meninos vivem do furto. E mais do que meninos abandonados, eles conhecem perfeitamente as ruas da cidade, a amam como ninguém. Desde cedo esses meninos são homens. Agem como homens, trapaceiam, roubam, articulam, bebem, derrubam as negrinhas no areal. São muito inteligentes... e carentes.

João Grande, Sem-Pernas, Gato, Professor, Pirulito, Boa-Vida, Barandão, Volta Seca, Pedro Bala e até a menina Dora e o padre José Pedro... São personagens que vivem nas ruas e conhecem a cidade. Eles só tem a eles mesmos. E isso não passa muito longe do meu projeto dos Moradores de Rua. Não estou dizendo que eles furtam ou coisa parecida, mas a situação de abandono nas ruas é semelhante. Seja qual for o motivo que eles moram nas ruas, eles estão sempre felizes por terem alguém com quem conversar de vez em quando.
No livro, quando Sem-Pernas arruma um cachorro é tão real. É como se vê por aí. Os moradores de rua costumam a adotar cães, que eles cuidam muito bem. É lindo de se ver. Essa semana, conheci o Seu José. Ele é um senhor que tem 5 cães. Ele não vai ao abrigo porque não aceitam tantos cachorros, mas ele não os abandona.

Também comecei a associar o padre José Pedro com um lugar interessante que eu fui. É bem perto do viaduto Vinte e Cinco de Março... Lá os moradores podem tomar banho, tem jogos, televisão e o momento de oração. Eles fazem um círculo (do qual eu também participei) cantam músicas de Deus, rezam e contam algumas histórias. Eu sei que, quem me conhece, sabe que eu não sou muito da religião, mas você acaba ficando envolvido por eles estarem tão envolvidos e, com essa fé que acabam criando nessas rodas de Deus, acabam se fortalecendo. No dia em que estive lá, um homem falou que depois que foi lá pela primeira vez se sentiu muito bem, ficou dias sem se drogar e que tinha sido muito legal e por isso resolveu voltar. Nas palavras dele: "Não voltei só pelo café da manhã, voltei por esse momento que temos aqui". As palavras de Deus pelo padre José Pedro despertaram em Pirulito a vontade de se tornar padre.

Nesse dia também, fiquei observando algumas pessoas lendo, pesquisando e anotando informações dos livros que a Tenda (que é o espaço do viaduto) tem. E pensei nas noites que o Professor, do livro, ficava até altas horas com uma vela, lendo os livros que roubava. E lendo pros outros meninos.
Os desenhos que a Tenda tem pendurados em toda sua extensão me lembraram do dom do Professor de desenhar, que o tirou das ruas e o levou até o Rio de Janeiro. A hora das canções, com um violão, um chocalho e uma batucada, me lembrou das rodas de samba de Boa Vida...

Essas comparações foram quase que inevitáveis, espontâneas. Capitães da Areia foi publicado em 1937, mas nunca me pareceu tão atual quanto agora.

(Infelizmente não pude fotografar a Tenda, próximo ao Viaduto, por ser um projeto do Governo, mas fica aqui a foto do cachorro do Seu José)

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

2010, novo tempo

Feliz 2010!

Abrindo a edição desse mês da revista Vida Simples, no espaço Pensando Bem, me deparei com um texto sobre o tempo. Não sei se por causa do fim de ano, começo de ano, eu já andava pensando bastante nesse assunto e a reportagem me fez aprofundar um pouco no assunto.
"A única proeza em que o homem teve sucesso, a respeito do tempo, foi conseguir medi-lo.", diz Eugenio Mussak. Medimos o tempo, passamos o tempo, mas jamais controlamos o tempo. Há tempos que o tempo passa devagar, outros voa. Quando estamos fazendo algo que nos satisfaz, que nos diverte, o tempo passa tão rápido que parece que estamos ali alguns segundos. Mas, quando estamos fazendo algo desagradável, chato e que não nos inspira, o tempo parece palpável. Parece que podemos cortá-lo com uma faca de tão denso que parece que está.

"Bem, sentir e medir o passar do tempo são iniciativas úteis, pois nos ajudam a decidir o que faremos com o tempo que dispomos. (...) Na prática, o que acontece mesmo é exatamente a falta de controle, de ação lógica na organização de suas prioridades. A agenda não escraviza - ao contrário, liberta, confere autonomia possibilidades, alcances. Mas gestão é a segunda palavra-chave. A primeira é escolha. Fazemos nossas escolhas com base em nossos valores e criamos uma estratégia para atingir nossos propósitos. Estratégias dependem de recursos, entre eles, o mais caro e raro: o tempo.", diz Eugenio Mussak.

Ao mesmo tempo que concordo com o que ele disse, não concordo. A agenda realmente ajuda a organizar, liberta em alguns casos, porque você se torna mais organizado e pode te ajudar a dividir o tempo para que você possa fazer o máximo de coisas que puder e quiser. Mas você também perde um pouco da liberdade de agir espontâneamente. Fazer as coisas no momento que você quer. Quer dizer, você é chamado pra um sorvete depois de um longo dia de trabalho, mas precisa recusar, porque atrasará em meia hora o resto da sua agenda. E, claro, nem sempre se consegue seguir a risca tudo que você programa, afinal, os imprevistos existem e de montes. Às vezes um erro pra imprimir, uma batida de carro na rua, uma falta de energia repentina...

Se você não é consciente o suficiente - o que acontece com a maioria de nós - acaba se perdendo entre ser livre pra fazer tudo o que quiser e seguir à risca o programado. A vida com uma agenda certa acaba tornando-se uma rotina o que, para a maioria das pessoas, é algo chato e tedioso. E ao mesmo tempo, aquele que vive fazendo o que quer, a hora que quer, acaba sem tempo pra fazer tudo que precisa fazer. Muitas vezes gasta tempo demais com diversão e de menos com obrigação. E talvez não exista uma fórmula mágica do tempo. Administrá-lo é algo muito complicado, porque não encaixamos os imprevistos e não queremos cair na rotina. Vivemos projetando o futuro, sem saber o que irá acontecer. Talvez nada do que agendamos vá realmente acontecer. O presente, o futuro e o passado estão interligados e interdependentes. Nas palavras de Mussak, "só vivemos no presente mas estamos fortemente conectados ao passado, que nos ensina, e ao futuro, que nos motiva. Viver é estar atado a essa tríade temporal, doce ou amarga, dependendo da consciência de cada um. Fazer as pazes com o tempo é a verdadeira sabedoria".

Então, sem essa baboseira de ficar prometendo o que irei e não irei fazer esse ano. Só estou tentando fazer meu tempo ser um bom tempo.

sábado, 26 de dezembro de 2009

O Natal e o Creme de Uvas

E lá se foi o Natal...
Dele ficaram as sobras! Muitas delas, de pernil, de tender, de maionese, de pudim, de pão, de torta de maçã e de creme de uvas...
Eu comecei a cozinhar não sei quanto tempo faz. Mas eu lembro que eu queria aprender a fazer aqueles bolos incríveis, com recheio, cobertura e todas essas coisas. Minha mãe sempre foi adepta do bom e velho bolo de cenoura. E eu queria algo diferente e novo. Minha sempre fez aqueles doces de : pudim, manjar, flan, arroz doce, pé-de-moleque, doce de abóbora... E eu queria fazer algo que elas não fizessem e eu gostava: Bolos. Fiz muitos, muitas receitas, coisas de todos os tipos, aqueles bolos complicados com suspiro, com glacê sei lá o que... Enfim, meu gosto acabou simplificando. Comecei a sentir falta do velho bolo de cenoura. Aí comecei a fazer salgados. Raramente faço doces agora. Mas essa receita aqui eu aprendi há alguns anos, num Reveillon... Não lembro qual, mas faz tempo. De lá pra cá, essa receita foi passando. A Tina aderiu, passou pra família dela, passamos pra outras amigas... Enfim, cá está ela.


Creme de Uvas
Ingredientes:
Creme
  • 1 lata de leite condensado
  • 1 lata de leite
  • 1 1/2 colher de manteiga sem sal
  • 1/2 lata de creme de leite
Cobertura
  • 1/2 barra (de 170g) de chocolate ao leite
  • 1/2 barra de chocolate meio amargo
  • 1 lata de creme de leite
Recheio
  • Uvas (sem semente) ou morangos picados
Modo de preparo

Creme: Leve ao fogo todos os ingredientes, menos o creme de leite. Misture bem e, em fogo baixo, deixe levantar fervura. A partir desse momento, mexa bem. Quando ele começar a engrossar e ficar um pouco mais mole que um creme, coloque o creme de leite e misture bem. Apague o fogo e reserve.
Uvas: Se você encontrar aquela uva verde, sem sementes é melhor, porque basta cortá-la ao meio. Mas, caso não encontre, use a uva verde normal, ao cortá-la ao meio, retire a sementes com a ponta de uma faca de serrinha.

- Em uma travessa, disponha as uvas cortadas ao meio, cubra com o creme já frio. Se preferir, pode misturar as uvas ao creme.

Cobertura: Pique os chocolates e, se tiver microondas (acho que hoje em dia todo mundo tem, menos eu, mas não ligo) coloque no microondas junto ao creme de leite até derreterem. Caso não tenha, como eu, faça no banho maria, dá um pouco mais de trabalho, mas o resultado é ótimo. Vai formar um creme mole e é só espalhar sobre o creme com as uvas. Cuidado que, por serem dois cremes, o creme de chocolate não espalha direito, tem que ir com paciência, colocando de pouquinho em pouquinho. Deixe na geladeira até a hora de servir! Bon Appétit!

Feliz Natal (atrasado)!

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Kinzinho


Outro dia, quando eu fui visitar a moça que mora embaixo da ponte, eu vi a Lili, a cachorrinha dela. A senhora não estava lá, mas a Lili me reconheceu no ato, quando eu me aproximei... Ela veio abanando o rabo, muito feliz em me ver. E eu tinha estado lá apenas uma vez, mas fiz um carinho nela e ela simplesmente se recordou de quem eu era. Fiquei com ela durante um tempo esperando a senhora chegar. Ela não chegou, só um outro senhor. Naquele dia fiquei pensando como era lindo essa relação dos animais com os humanos, a maneira como eles te reconhecem, como te amam de uma maneira tão leal, de como tentam te agradar e como reconhecem quando fazem travessuras...

No último final de semana fui pra São José e fiquei com uma gripezinha chata. Chegou no domingo eu estava como um zumbi pela casa. Resolvi que queria ficar por lá mesmo até terça e matar a aula de segunda. Foram dois dias a mais com o Kinzinho. E foram os dois dias a mais. Nós dois jogados no sofá da sala vendo TV, comendo presunto e queijo na cozinha. Eu reclamando que ele não queria comer melancia. Ele se recostando na minha perna. Eu o chamando pra ficar deitado no chão da sala vendo a novela da sete com meus pais e a minha vó. Nós dois indo pra lá e pra cá. Não existia sintonia mais perfeita, Ele é meu filho e, às vezes, parecia que ele tinha saído de dentro de mim. O seu jeito esquisitinho tão parecido com meu, seus olhos de um castanho tão igual ao meu, seus cabelos brancos, mas lisinhos como os meus, do seu intestino que funcionava bem igual ao da família (ele fazia umas 4 vezes cocô quando ia passear) seu focinho e orelhas geladas que eu sempre gostei, suas pintinhas pelo corpo gordinho, seu tamanho maior que o normal e sua felicidade. Ele sempre sorriu.

Não sei se vou saber honrar o que eu sinto ou que ele significa pra mim em algumas palavras, mas eu fico tentando buscar jeitos de entender e de se fazer entender o que aconteceu.
Lembro uma vez, há muito tempo atrás quando minha mãe falou que não imaginou que eu fosse gostar tanto dele. Lembro tão bem, como se tivesse com ele no meu colo agora, o primeiro dia que ele chegou em casa, tão quentinho que parecia que tinha feito xixi em mim. Lembro da primeira noite que passamos juntos. Denis e eu deitados no tapete de pele de carneiro da minha mãe fingindo que estavamos dormindo pra ele dormir também. Lembro como a gente o aplaudia e ria quando ele pulava o murinho da minha velha casa. De como ele tinha suas manias esquisitas, como deitar parecendo uma rã, adorar queijo nózinho, empurrar com o focinho a porta do meu banheiro, lamber meus dedos do pé quando eu tirava o tênis, brincar de vene-torino-vene-tibum, de passear livre pela pracinha, de implicar com as palmas, de ficar correndo atrás da Tila feito uma sarna, de encostar a cabeça nos meus pés, de como ele acabava com os nossos chinelos, do dia que ele fez cocô em cima da cama da minha mãe (bem no centro da cama), da capacidade de fazer cocô bem em cima dos murinhos, do primeiro banho dele que eu fiquei uns 15 minutos rindo de como ele ficava esquisito molhado, de quando ele mordeu o rato, de quando ele fez xixi nas costas da vizinha, de como ele mexia o rabo quando me via, de como ele latia e rosnava pras pessoas que tentavam bater em todos nós da família, seu medo de altura, como ele arranhava minhas costas quando eu subia as escadas com ele, do dia que ele caiu das escadas... e como ele nunca esqueceu de mim por mais que eu ficasse fora dias e dias...

É engraçado como um cachorro pode fazer mais falta que um ser humano. Eu nunca chorei tanto a perda de alguém como eu estou chorando a do Kinzinho. Ele era meu filhote, totalmente parte de mim, meu bebêzinho, meu adugui dugui mamãe da mamãe mamãe, meu porto seguro, meu amigo, meu companheiro, o presente que eu ganhei e que mais amei. Eu não sou de demonstrar afeto, não sou de demonstrar carinho e nem ser uma pessoa muito doce, mas, se existe alguém em todo mundo que conheceu o meu lado mais doce, mais generoso, mais altruista, mais maternal e mais carinhoso, com certeza foi o Kinzinho. Nunca fiquei um dia todo perto dele sem falar pelo menos uma vez que eu o amava, ou como ele era a coisinha mais importante do mundo, ou como ele era uma bolota gorda fedida que não fedia que eu mais gostava. O bom é saber que ele se foi sabendo um pouco da extensão do amor que eu sinto por ele. E graças a Deus ele não sofreu muito...

Eu não sei se consigo me sentir melhor e não sei como vai ser quando eu for pra São José e não o ver. Não ir até o trampo da minha mãe com ele no banco do carona, não carregar ele morrendo de sono até sua casinha, não ver ele parado na porta do meu quarto assim que ouve o primeiro barulho de que eu acordei. Parece tudo um pouco vazio, mas vamos todos aprender a conviver com isso...

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Julie & Julia - o filme


Andava meio desanimada, mas fui ver Julie & Julia e fiquei muito animada! Sério, o filme é muito legal. Já falei antes sobre isso aqui. E tava ansiosa pra ver o filme. Estreou na sexta, mas fui pra São José e lá não estava passando o filme, droga!

O filme é um pouco diferente do livro. Temos duas histórias, a de Julie (e se passa em 2002)- uma mulher de 30 anos que está desanimada com o rumo da sua vida em seu apartamento minúsculo, seu cúbiculo onde é secretária e a maneira como nunca termina nada do que começa - e a de Julia (que se passa nas décadas de 50/60) que aprendeu a cozinhar quarentona, em oito anos escreveu um dos maiores livros de comida francesa para mulheres que não tem uma empregada e ainda estrelou uma programa de televisão culinário.

Julie Powell resolve fazer as 524 receitas de Julia em 365 dias, mantendo então uma missão por um ano e postando diariamente em seu blog suas experiências. Ela ganha fãs, que acompanham seu blog e a incentivam. Ela imagina uma Julia como se fosse sua amiga próxima, quase como uma amiga imaginária. Ela tem convicção de que Julia a apoia e está sempre ali ajudando pra que tudo dê certo. No livro, temos a trajetória de Julie bem traçada, com os altos e baixos de suas experiências, com a sua vida mais explícita, suas amizades, seus dramas diários e suas dificuldades na cozinha. No filme temos todas essas partes com mais humor, em cenas engraçadas e desengonçadas como a que ela prepara lagostas, ou em algum de seus ataques...

Diferente do livro, no filme nós conhecemos melhor a Julia Child, vivendo com seu marido Paul em Paris, aprendendo a cozinhar, sendo uma mulher grande, alegre e carismática e encontrando na comida, assim como Julie encontra, uma razão ou um rumo pra seguir. Julia começa a se dar bem e resolve com duas amigas fazer um livro pra ensinar as americanas a cozinha francesa sem a necessidade de uma empregada. Então elas começam o Mastering the Art of French Cooking que, depois de oito anos sendo escrito, testado e revisado, é lançado e vira um grande sucesso. Julia além de surpreender é convidada a fazer um programa de televisão (The French Chef) que vira um sucesso nos Estados Unidos.

Unidas pela paixão pela cozinha e por muita manteiga, o filme relata duas grandes mulheres com suas dificuldades, com sua perseverança e com seus jeitos desastrados e engraçados. Meryl Streep está cativante em seu papel como Julia Child e Amy Adams é simplesmente a Julie Powell que eu esperava. Vale a pena conferir a sala cheia de senhoras, de filhas (os) acompanhando as mães e se divertindo também.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Memórias de uma Gueixa


Independente da correria, do cansaço, eu sempre guardo alguns minutos do dia pra me abstrair de tudo que existe e ler. Semana retrasada Memórias de uma Gueixa, de Arthur Golden, entrou em promoção no Submarino. Resolvi comprar. Já tinha entrado antes, mas quando fui comprar esgotou, mas dessa vez eu consegui! Estava lendo outro livro, mas esqueci em São José e nessa semana passada comecei a ler Memórias de uma Gueixa. E simplesmente não conseguia parar. Estive trabalhando intensamente no meu portfólio da Pan, mas dava uma escapadinha pra ler.

O livro é sensacional. E olha que eu nem sou muito da cultura, mas depois de ler Musashi, acabei me animando.

A história é a de Chiyo, na década de 20, no Japão. Filha de pescadores, com a mãe doente e o pai em idade avançada, ela é vendida para uma okiya de Kyoto. É separada de sua irmã Satsu que acaba indo pra Zona de Prazer por não ter os olhos cinza azulados fascinantes de Chiyo. Chiyo logo é aceita como aluna da escola preparatória para gueixa. Ela começa a vida ali servindo e arquitetando uma maneira de encontrar Satsu e fugir. Com a "ajuda" de Hatsumomo, a gueixa que sustenta o okiya, Chiyo descobre onde está Satsu e marcam de fugir. Hatsumomo arma vários planos para fazer com que Chiyo não se torne uma gueixa, pois sabe que ela tem futuro. Chiyo tenta fugir, mas acaba caindo do telhado e é pega por Mamãe. Suas chances de virar uma gueixa se vão e ela se torna uma escrava da okiya. Vê sua amiga Abóbora (Pumpkin) se tornar uma aprendiz de gueixa e se tornar irmã de Hatsumomo.
Sem esperanças, sabendo que perdeu seus pais e sua irmã nunca mais voltará, Chiyo vive desolada. Não tenta mais fugir e certo dia na praça um homem bom, que chamam de Presidente paga-lhe um sorvete de cereja e lhe dá um lenço. Ele está acompanhado de uma linda gueixa, mas fica encantado com os olhos da menina e com seu olhar desesperado. A partir desse dia, Chiyo resolve que quer se tornar uma gueixa e ter um futuro pra poder se aproximar do presidente de novo.
Depois da morte de Vovó, Chiyo conhece Mameha, uma grande gueixa e rival de Hatsumomo. Essa pede permissão a mamãe para ser a irmã de Chiyo para que ela se torne uma gueixa. Chiyo, sob a tutela de Mameha, torna-se Sayuri, uma grande gueixa no Japão. Conquista a admiração de Nobu, amigo do Presidente. Mas vem a Segunda Guerra Mundial e a faz seguir caminhos diferentes. Mas ela ainda volta a Gion...

O bacana é que além da história de Chiyo, você acaba aprendendo quais eram os costumes das gueixas e da sociedade japonesa da época. As pessoas acabam tendo uma visão errônea das gueixas, mas que, no livro, é esclarecida, gueixa quer dizer artista. Aprendemos sobre as delicadezas e sutilezas que acompanham o movimento dessas mulheres, como um simples olhar pode derrubar um homem e a maneira como os pequenos gestos podem encantar as pessoas.

Bom, depois de ler o livro, fiquei curiosa com o filme. Já tinha assistido trechos dele, mas acabei baixando pra assistir. O livro é rico em detalhes, que ficam mais difíceis de serem visualizados no filme. A história também muda um pouco, mas os incríveis olhos azuis acinzentados e a trajetória da pequena Chiyo contagiam. Os lindos kimonos, o retrato da sociedade japonesa, os costumes, os pavores da 2ª Guerra e o amor.



Vale a pena. Tanto o livro quanto o filme. Ambos são antigos. O livro é de 1997 e o filme de 2005.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

E no metrô Pedro II...

Uma das coisas mais legais do meu trajeto até o Senac Tatuapé são as estações ao ar livre. Você fica longe das paredes dos trilhos subterrâneos e descobre partes de São Paulo que não costuma visitar. É quase como andar de ônibus, mas mais rápido e com uma vista mais superior. Eu já tinha feito o trajeto outras vezes, mas quando se torna rotina você pode analisar cada detalhe.


Mas teve um lugar que me chamou atenção logo no primeiro dia de aula do Senac. Eu reparei em algo entre o metrô Pedro II e a Sé. Era algo estranho. Não sabia se vivia alguém ali, se era um depósito, se era uma casa, se era algo esquecido pelo governo. Não conseguia entender porque aquilo estava ali. Entre a Avenida do Estado, bem próximo ao metrô Pedro II e o Viaduto Vinte e Cinco de Março. Era quase uma ponte. Dali você ia praquela parte da rua que é apenas para ônibus. O lugar tinha calotas de carro, uma montanha de papelão, bonecas, bichos de pelúcias, plantas naturais e artificiais, vassoura, e um monte de pequenas coisas que eu não conseguia enxergar. Parecia um monte de lixo. Acima do rio que eu acredito ser o Tietê, aquele lugar era simplesmente algo a se notar. O portão era um pouco enferrujado e, ao mesmo tempo, levando os tons de azul de um graffiti já meio antigo. Aquele lugar se tornou uma obsessão pra mim. Toda vez que eu passava ali eu ficava tentando ver se tinha alguém ou se as coisas ainda estavam lá. Ficava imaginando o que poderia ser aquele lugar. Por que estava ali e por que ninguém o retirava de lá? Se estivesse abandonado por que não tinham sido tomadas providências?

Vista do Viaduto Vinte e Cinco de Março (Mila Kodaira)

Aí surgiu nosso primeiro trabalho de tema livre em fotografia e eu resolvi tirar a limpo o que era aquele lugar. Fui com aquele pensamento de “independente do que seja” vale a pena conferir. Ou então, quem sabe eu consigo tirar umas fotos do lugar? Fiquei na esperança de conseguir adentrar naquele lugar e tirar umas fotos do caos, da sujeira, das coisas que tinham lá. Fiquei imaginando o lugar como um local para se explorar. Independente se fosse feio ou bonito, era interessante.

Assim que acabou a aula de uma quarta-feira, dia 21, eu parti pra minha missão. A princípio, fiquei um pouco perdida. Assim que achei o lugar fiquei olhando através do portão, bati na portinha, fiquei andando por ali, mas não apareceu ninguém. Conheci uma mulher que vendia água pros motoristas que enfrentavam o trânsito e perguntei a ela sobre ter como entrar ali. Foi assim que descobri que a “casa” tinha uma dona. Uma senhora que, segundo a vendedora de água, era louca. Usava muita maquiagem, muitas bijuterias, falava muito e rápido e ainda gritava sozinha. Ai que eu me animei mais ainda pra conhecer a tal mulher. Falando assim parecia uma personagem. Fiquei sabendo que ela saia todos os dias e só voltava no fim da tarde. Era uma da tarde, o Sol estava brilhando, muito quente e eu achei que esperá-la voltar seria loucura. Andei pelo lugar, vi vários moradores de rua, vi pessoas fazendo xixi no Viaduto Vinte e Cinco de Março, vi roupas penduradas num varal no “jardim” do Metrô Pedro II, o trânsito parando a Avenida do Estado...

Resolvi chegar lá de novo no dia seguinte. Às 16h lá estava eu. Andei, andei e não vi nem a vendedora de água e nem a dona do lugar. Fiquei meio decepcionada porque pensei que já ia encontrá-la. Fiquei tentando ver pelas frestas do portão o meu desejado lugar. Pensei em dar um jeito de entrar, mas achei que, independente do lugar que ela se encontrava, era o lugar de alguém.

Resolvi seguir mais em frente e me deparei com outra senhora morando embaixo do Viaduto Vinte e Cinco de Março. Perguntei à ela sobre a senhora que morava ali na ponte, mas ela só soube me dizer que era uma senhora negra, que não gostava de brancos e que tinha mandado bater nela. Fiquei impressionada com a história e sentei ali na casa dela pra conversar. Ficamos batendo papo por mais de uma hora e assim, eu mal falei, ouvi muito mais. Ela era incrível e o que ela queria era alguém pra poder chorar as pitangas, contar algo. Alguém que a notasse e dispensasse uns minutos do seu dia pra ouvi-la.

São grandes histórias, são sonhos e esperanças de pessoas que não tem nada, mas não perdem a esperança de ter algo. Ela me disse que sonhava voltar a estudar numa escola perto da Sé, “aquela que não tinha sido invadida pelos nóias”. Que se ela estudasse poderia virar uma Delegada, iria pintar o cabelo de loiro, pra combinar com o verde de seus olhos, e ia prender todos aqueles nóias que a insultaram, a chamaram de suja e zoaram com a cara dela. Ela poderia implantar um dente que faltava na frente, ter uma casa e viver bem com sua cadela, Lili, e seu companheiro. Ela tinha tão pouco a oferecer e me ofereceu sua água. Disse que o resto de macarrão que tava na panela era da Lili porque ela tá prenha. Achei tão bacana ela ainda dividir o pouco que tinha com a cachorrinha, porque ela tava precisando bastante. Foi quando ela me perguntou o que eu fazia e eu falei que era estudante. Que estava atrás da moça que morava ali na ponte porque queria fotografar o lugar, mas que, se ela não se importasse, eu queria fotografá-la e fotografar a Lili. Ela ficou super feliz com a ideia e, prometi levar algumas fotos pra ela ver.

A senhora e sua cadela, Lili (Mila Kodaira)

No fim, eu mudei um pouco o rumo do meu trabalho. Minha ideia primária era fotografar aquela "casa" no meio da ponte, mas, a partir do momento que você fala com pessoas, a sua visão muda. Não é só fotografar isso ou aquilo, é tentar ajudar alguém que tá precisando, é dar uma felicidade, mesmo que pequena, pra alguém. Sei lá, parece meio romantizado, mas você fica mais sensibilizado quando vê a realidade assim, na sua cara. Percebe que por trás dessas casas, no mínimo, inusitadas, existem pessoas que podem ser inteligentes, simples, humildes, loucas, sofridas. São aquelas pessoas que não esperam nada de você e quando recebem alguma coisa ficam realmente gratas. Claro, não posso generalizar e dizer que todos são assim, mas muitos são. Você não pode se aproximar delas com medo ou com nojo pelo que elas são, por estarem sujas e abandonadas. Pegar na mão de uma pessoa dessas é fazê-las confiar em você. Enfim, mudei um pouco o rumo do meu trabalho, mas depois de mais algumas saídas acabei encontrando o que eu queria a princípio, mas aí percebi que eu tinha descoberto algo ainda maior. Talvez não seja inovador, nem inédito, mas foi ali que encontrei alguma satisfação.

Me perguntaram bastante sobre medo ou sobre roubar a camera. Sei lá, acho que esse é o tipo de risco que você sempre corre. Estando lá na Paulista no meio da tarde, na Sé, no Morumbi, no Brooklin, no Tatuapé ou então no metrô Pedro II. Se você se prender toda hora essa coisa de te roubarem, você nunca vai sair...

Memórias dos outros dias logo menos...

Lili (Mila Kodaira)

Havaianas Clássicas (Mila Kodaira)